terça-feira, 9 de março de 2010

Pausa.

De tudo, de qualquer coisa. Só preciso de uma pausa.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Carta para você

E sabe o que é mais legal? Tanto faz você ler agora ou não. Tanto faz...Porque o que não foi não é.

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E aconteceu mais uma vez.
Engraçado. Existem pessoas que entram na nossa vida de repente e com o mesmo estrépito saem, nos abandonam (ou são abandonadas por nós). Existem pessoas que ficam por um tempo, vão embora e voltam sem causar qualquer sentimento de ódio ou amor. Agora, há pessoas que mudaram a nossa vida de um modo muito intenso. Fizeram parte de algo muito importante. E isso acaba. Porque na vida, tudo acaba. Mas também volta, as pessoas voltam. E quando uma pessoa tão essencial assim reaparece, nosso mundo vira de cabeça para baixo. Não sabemos mais se estamos misturando tudo, se é apenas empolgação. Confusão, pensamentos que pisoteiam o nosso coração, bem lá no fundo mesmo. E dói. Dói pensar que se sente uma coisa que, talvez, não sinta. Mas dói ainda mais quando sentimos o que já sentimos um dia. Dói se o sentirmos com a mesma intensidade, com o mesmo gostinho, a mesma ilusão. Dói, dói mesmo. Sei lá de onde aquela coisa vem. Só sei que vem e pára na garganta. Dá vontade de chorar, de gritar, de se jogar nos braços daquela coisa mais linda, sempre sorrindo para você. Dá vontade de apertar aquela cara meiga e dizer tantas coisas idiotas. [...] É tudo tão complicado...E de repente fica tão simples. Por um lado, as coisas poderiam ser bem fáceis. Eu sei que poderia conseguir ser tudo aquilo que você merece, meu doce garoto. Eu sei que eu conseguiria bater na porta da sua casa e chegar de surpresa....Então, o que me impede? O que me impede de subir em um ônibus e viajar para a sua cidade? Paradoxalmente, o que me impede é você mesmo.
Porque eu sei, eu tenho certeza que vai ser perfeito. Lindo. Meigo. Doce. Fascinante. Perturbador. DESCONCERTANTE! E isso me deixa com tanto, tanto medo!
Só o futuro sabe o que vai acontecer. E só o passado sabe que um dia eu escrevi quase a mesma coisa, sobre mesma pessoa. Apesar de tudo, não consigo sentir nenhuma raiva. Só amor. Do mais intenso e sincero.

Você não se contentou em fazer parte da minha vida. TINHA que se tornar um pedacinho de mim. E eu já não sei se vivo sem...Sem aquele seu sorriso tímido. Sem aquela sua risada linda. Não sei se vou conseguir esquecer os dias que você cantou para mim, os dias que você disse que me queria muito, que me amava.
Estranho mesmo eu gostar tanto assim de você. Meu inevitável. Parece que nunca vai embora, poxa! Acaba sempre voltando!

Pode ser cedo para dizer que eu amo você. Mas não é. Porque já passamos por muitas coisas, não? Pois é, eu amo você. E acho que vou amar pro resto da minha vida.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Carta ao Zézim

Porto, 22 de dezembro de 1979

Zézim,

cheguei hoje de tardezinha da praia, fiquei lá uns cinco dias, completamente só (ótimo!), e encontrei tUa carta. Esses dias que tô aqui, dez, e já parece um mês, não paro de pensar em você. Tou preocupado, Zézim, e quero te falar disso. Fica quietO e ouve, ou lê, você deve estar cheio de vibrações adeliopradianas e, portantO, todo atento aos pequenos mistérios. É carta longa, vai te preparando, porque eu já me preparei por aqui com uma xícara de chá Mu, almofada sob a bunda e um maço de Galaxy, a decisão pseudo-inteligente.

Seguinte, das poucas linhas da tua carta, 12 frases terminam com ponto de interrogação. São, portanto, perguntas. Respondo a algumas. A solução, concordo, não está na temperança. Nunca esteve nem vai estar. Sempre achei que os dois tipos mais fascinantes de pessoas são as putas e os santos, e ambos são inteiramente destemperados, certo? Não há que abster-se: há que comer desse banquete. Zézim, ninguém te ensinará os caminhos. Ninguém me ensinará os caminhos. Ninguém nunca me ensinou caminho nenhum, nem a você, suspeito. Avanço às cegas. Não há caminhos a serem ensinados, nem aprendidos. Na verdade, não há caminhos. E lembrei duns versos dum poeta peruano (será Vallejo? não estou certo): “Caminante, no hay camino. Pero el camino se hace ai anda”.

Mais: já pensei, sim, se Deus pifar. E pifará, pifará porque você diz ”Deus é minha última esperança". Zézim, eu te quero tanto, não me ache insuportavelmente pretensioso dizendo essas coisas, mas ocê parece cabeça-dura demais. Zézim, não há última esperança, a não ser a morte. Quem procura não acha. É preciso estar distraído e não esperando absolutamente nada. Não há nada a ser esperado. Nem desesperado. Tudo é maya / ilusão. Ou samsara / círculo vicioso.

Certo, eu li demais zen-budismo, eu fiz ioga demais, eu tenho essa coisa de ficar mexendo com a magia, eu li demais Krishnamurti, sabia? E também Allan Watts, e D. T. Suzuki, e isso freqüentem ente parece um pouco ridículo às pessoas. Mas, dessas coisas, acho que tirei pra meu gasto pessoal pelo menos uma certa tranqüilidade.

Você me pergunta: que que eu faço? Não faça, eu digo. Não faça nada, fazendo tUdo, acordando todo dia, passando café, arrumando a cama, dando uma volta na quadra, ouvindo um som, alimentando a Pobre. Você tá ansioso e isso é muito pouco religioso. Pasme: acho que você é muito pouco religioso. Mesmo. Você deixou de queimar fumo e foi procurar Deus. Que é isso? Tá substituindo a maconha por Jesusinho? Zézim, vou te falar um lugar-comum desprezível, agora, lá vai: você não vai encontrar caminho nenhum fora de você. E você sabe disso. O caminho é in, não off. Você não vai encontrá-lo em Deus nem na maconha, nem mudando para Nova York, nem.

Você quer escrever. Certo, mas você quer escrever? Ou todo mundo te cobra e você acha que tem que escrever? Sei que não é simplório assim, e tem mil coisas outras envolvidas nisso. Mas de repente você pode estar confuso porque fica todo mundo te cobrando, como é que é, e a sua obra? Cadê o romance, quedê a novela, quedê a peça teatral? DANEM-SE, demônios. Zézim, você só tem que escrever se isso vier de dentro pra fora, caso contrário não vai prestar, eu tenho certeza, você poderá enganar a alguns, mas não enganaria a si e, portanto, não preencheria esse oco. Não tem demônio nenhum se interpondo entre você e a máquina. O que tem é uma questão de honestidade básica. Essa perguntinha: você quer mesmo escrever? Isolando as cobranças, você continua querendo? Então vai, remexe fundo, como diz um poeta gaúcho, Gabriel de Britto Velho, "apaga o cigarro no peito / diz pra ti o que não gostas de ouvir / diz tudo". Isso é escrever. Tira sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a "função social", nem nada, não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto-exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te. Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora. A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação: um sentimento de glória interior. Essa expressão é fundamental na minha vida.

Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima, Zézim. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sangrada de tudo. Te falo nela porque Clarice, pra mim, é o que mais conheço de GRANDIOSO, literariamente falando. E morreu sozinha, sacaneada, desamada, incompreendida, com fama de "meio doida”. Porque se entregou completamente ao seu trabalho de criar. Mergulhou na sua própria trip e foi inventando caminhos, na maior solidão. Como Joyce. Como Kafka, louco e só lá em Praga. Como Van Gogh. Como Artaud. Ou Rimbaud.

É esse tipo de criador que você quer ser? Então entregue-se e pague o preço do pato. Que, freqüentemente, é muito caro. Ou você quer fazer uma coisa bem-feitinha pra ser lançada com salgadinhos e uísque suspeito numa tarde amena na CultUra, com todo mundo conhecido fazendo a maior festa? Eu acho que não. Eu conheci / conheço muita gente assim. E não dou um tostão por eles todos. A você eu amo. Raramente me engano.

Zézim, remexa na memória, na infância, nos sonhos, nas tesões, nos fracassos, nas mágoas, nos delírios mais alucinados, nas esperanças mais descabidas, na fantasia mais desgalopada, nas vontades mais homicidas, no mais aparentemente inconfessável, nas culpas mais terríveis, nos lirismos mais idiotas, na confusão mais generalizada, no fundo do poço sem fundo do inconsciente: é lá que está o seu texto. Sobretudo, não se angustie procurando-o: ele vem até você, quando você e ele estiverem prontos. Cada um tem seus processos, você precisa entender os seus. De repente, isso que parece ser uma dificuldade enorme pode estar sendo simplesmente o processo de gestação do sub ou do inconsciente.

E ler, ler é alimento de quem escreve. Várias vezes você me disse que não conseguia mais ler. Que não gostava mais de ler. Se não gostar de ler, como vai gostar de escrever? Ou escreva então para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. E eu acho — e posso estar enganado — que é isso que você não tá conseguindo fazer. Como é que é? Vai ficar com essa náusea seca a vida toda? E não fique esperando que alguém faça isso por você. Ocê sabe, na hora do porre brabo, não há nenhum dedo alheio disposto a entrar na garganta da gente.

Ou então vá fazer análise. Falo sério. Ou natação. Ou dança moderna. Ou macrobiótica radical. Qualquer coisa que te cuide da cabeça ou/ e do corpo e, ao mesmo tempo, te distraia dessa obsessão. Até que ela se resolva, no braço ou por si mesma, não importa. Só não quero te ver assim engasgado, meu amigo querido.

Pausa.

Quanto a mim, te falava desses dias na praia. Pois olha, acordava às seis, sete da manhã, ia pra praia, corria uns quatro quilômetros, fazia exercícios, lá pelas dez voltava, ia cozinhar meu arroz. Comia, descansava um pouco, depois sentava e escrevia. Ficava exausto. Fiquei exausto. Passei os dias falando sozinho, mergulhado num texto, consegui arrancá-lo. Era um farrapo que tinha me nascido em setembro, em Sampa. Aí nasceu, sem que eu planejasse. Estava pronto na minha cabeça. Chama-se Morangos mofados, vai levar uma epígrafe de Lennon & McCartney, tô aqui com a letra de Strawberry fields forever pra traduzir. Zézim, eu acho que tá tão bom. Fiquei completamente cego enquanto escrevia, a personagem (um publicitário, ex-hippie, que cisma que tem câncer na alma, ou uma lesão no cérebro provocada por excessos de drogas, em velhos carnavais, e o sintoma — real — é um persistente gosto de morangos mofados na boca) tomou o freio nos dentes e se recusou a morrer ou a enlouquecer no fim. Tem um fim lindo, positivo, alegre. Eu fiquei besta. O fim se meteu no texto e não admitiu que eu interferisse. Tão estranho. Às vezes penso que, quando escrevo, sou apenas um canal transmissor, digamos assim, entre duas coisas totalmente alheias a mim, não sei se você entende. Um canal transmissor com um certo poder, ou capacidade, seletivo, sei lá. Hoje pela manhã não fui à praia e dei o conto por concluído, já acho que na quarta versão. Mas vou deixá-lo dormir pelo menos um mês, aí releio — porque sempre posso estar enganado, e os meus olhos de agora serem incapazes de verem certas coisas.

Aí tomei notas, muitas notas, pra outras coisas. A cabeça ferve. Que bom, Zézim, que bom, a coisa não morreu, e é só isso que eu quero, vou pedir demissão de todos os empregos pela vida afora quando sentir que isso, a literatura, que é só o que tenho, estiver sendo ameaçada como estava, na Nova.

E li. Descobri que ADORO DALTON TREVISAN. Menino, fiquei dando gritos enquanto lia A faca no coração, tem uns contos incríveis, e tão absolutamente lapidados, reduzidos ao essencial cintilante, sobretudo um, chamado "Mulher em chamas". Li quase todo o Ivan Ângelo, também gosto muito, principalmente de O verdadeiro filho da puta, mas aí o conto-título começou a me dar sono e parei. Mas ele tem um texto, ah se tem. E como. Mas o melhor que li nesses dias não foi ficção. Foi um pequeno artigo de Nirlando Beirão na última IstoÉ (do dia 19 de dezembro, please, leia), chamado "O recomeço do sonho". Li várias vezes. Na primeira, chorei de pura emoção - porque ele reabilita todas as vivências que eu tive nesta década. Claro que ele fala de uma geração inteira, mas daí saquei, meu Deus, como sou típico, como sou estereótipo da minha geração. Termina com uma alegria total: reinstaurando o sonho. É lindo demais. É atrevido demais. É novo, sadio. Deu uma luz na minha cabeça, sabe quando a coisa te ilumina? Assim como se ele formulasse o que eu, confusamente, estava apenas tateando. Leia, me diga
o que acha. Eu não me segurei e escrevi uma carta a ele dizendo isso. Não sou amigo dele, só conhecido, mas acho que a gente deve dizer.

Escrevendo, eu falo pra caralho, não é?

Aqui em casa tá bom. É sempre um grande astral, não adianta eu criticar. O astral ótimo deles independe da opinião que eu possa ter a respeito, não é fantástico? A casa tá meio em obras, Nair mandou construir uma espécie de jardim de inverno nos fundos, vai ligar com a sala. Hoje estava pUta porque o Felipe não vai mais fazer vestibular: foi reprovado novamente no 3º colegial. Minha irmã Cláudia ganhou uma Caloi 10 de Natal do noivo (Jorge, lembra?), e eu me apossei dela e hoje mesmo dei voltas incríveis pelo Menino Deus(?). Márcia tá bonita, mais adultinha, assim com um ar meio da Mila. Zaél cozinhando, hoje faz arroz com passas para o jantar.

Povos outros, nem vi. Soube que A comunidade está em cartaz ainda e tenho granas pra receber. Amanhã acho que vou lá.

Tô tão só, Zézim. Tão eu-eu-comigo, porque o meu eu com a família é meio de raspão. Tá bom assim, não tenho mais medo nenhum de nenhuma emoção ou fantasia minha, sabe como? Os dias de solidão total na praia foram principalmente sadios.

Ocê viu a Nova? Tá lá o seu Chico, tartamudeante, e uma foto muito engraçada de toda a redação — eu com cara de "não me comprometam, não tenho nada a ver com isso". Dê uma olhada. Falar nisso, Juan passou por aqui, eu tava na praia, falou com Nair por telefone, estava descendo de um ônibus e subindo noUtro. Deixou dito que volta dia três de janeiro ou fevereiro, Nair não lembra, pra ficar uns dias. Ficará? E nada acontecerá. Uma vez me disseram que eu jamais amaria dum jeito que "desse certo", caso contrário deixaria de escrever. Pode ser. Pequenas magias. Quando terminei Morangos mofados, escrevi embaixo, sem querer, "criação é coisa sagrada”. É mais ou menos o que diz o Chico no fim daquela matéria. É misterioso, sagrado, maravilhoso

Zézim, me dê notícias, muitas, e rápido. Eu não pensei que ia sentir tanta falta docê. Não sei quanto tempo ainda fico, mas vou ficando. Quero escrever mais, voltar à praia, fazer os documentos todos. Até pensei: mais adiante, quando já estivesse chegando a hora de eu voltar, você não queria vir? A gente faria o mesmo esquema de novo, voltaríamos juntos. A família te ama perdidamente, hoje pintaram até uns salseirinhos rápidos porque todo mundo queria ler a matéria do Chico ao mesmo tempo.

Let me take you down
cause I’m going to strawberry fields
nothing is real, and nothing to get hung about
strawberry fields forever
strawberry fields forever
strawberry fields forever


Isso é o que te desejo na nova década. Zézim, vamos lá. Sem últimas esperanças. Temos esperanças novinhas em folha, todos os dias. E nenhuma, fora de viver cada vez mais plenamente, mais confortáveis dentro do que a gente, sem culpa, é. Let me take you: I’m going to strawberry fields.

Me conta da Adélia.

E te cuida, por favor, te cuida bem. Qualquer poço mais escuro, disque 0512-33-41-97. Eu posso pelo menos ouvir. Não leve a mal alguma dureza dita. É porque te quero claro. Citando Arantes, pra terminar: "Eu quero te ver com saúde I sempre de bom humor I e de boa vontade".

Um beijo do

Caio

PS — Abraço pro Nello. Pra Ana Matos, e Nino também.






Do meu, querido, Caio Fernando Abreu.

Tempo

O caminhar torto dos ponteiros a me perseguir. Por vezes a leve brisa (des)encadeia lembranças de dias vindouros, e o silêncio de uma página em branco começa a gritar…

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Papinho com Lispector e.

Suplicava, inconscientemente, para que aquela noite tumultuada fosse embora. Queria que ela acabasse como uma peça de teatro. Seria tão mais fácil. As cortinas deslizariam e esconderiam todo aquele medo, toda aquela angústia pisoteada. Ela nunca fora boa com essas coisas que costumavam chamar de...amor? Seria essa a palavra? Não importava mais, de qualquer forma.
Seu coração quase saltou para fora quando percebeu que talvez tivesse se encontrado, como se entendesse tudo o que estava sentindo (ou achando que estava sentindo, era quase a mesma coisa). Ou como se entendesse essa sua confusão.

-Noite difícil?
-Talvez eu não queria falar sobre isso.
-É, eu sei que você não gosta de falar sobre isso. Conheço esse seu coração orgulhoso, olhos castanhos.
-Meu coração não é orgulhoso! Muito pelo contrário.
-Isso não vai funcionar comigo. Apenas admita que é diferente desta vez.
Entrelaçou os dedos e balançou a cabeça. Ninguém podia imaginar como cada fibra do seu ser dóia quando ela admitia o que procurava esconder todos os momentos da sua vida.
-Tudo bem, tudo bem! É diferente desta vez, mas isso não muda absolutamente nada.
-Mas é claro que muda. Nós temos uma coisa em comum: gostamos do diferente, do distante, do desafio. E ele é, para você, uma linda melodia desafinada! Você mal consegue dormir à noite porque, aonde quer que você vá, você escuta a música que vem dele. Estou errada?
-Não, não está errada.
-Então, faça alguma coisa.
Por Deus! Aquilo já era demais. Não era porque ela cutucava seu 'eu' que ela poderia falar e fazer o que bem entendesse. Não podia! Não podia! Doía demais imaginar como poderia ter sido. Passava noites em claro imaginando o que poderia ter falado (ou calado), o que poderia ter feito. Como as coisas seriam diferentes se ela não tivesse essa mania terrível de fugir do que lhe interessava, ou até mesmo fingir que não interessava.
-E você acha que eu não estou fazendo nada? Não seja patética!
-Ser patética faz parte, querida! Não tenha medo! Tanto medo assim só a levará para longe do que você realmente quer.
-Não me importa. Eu quero, mas não preciso. Essa é a diferença!
-É claro que você não precisa dele. Nós duas não precisamos de ninguém. Mas nós não podemos dizer não sempre. Alguma hora nós precisamos ceder.
-Ceder para quem?
-Ceder pra você mesma. Ceder para isso que você sente dentro do peito. Ceder para essa dor que está entalada na sua garganta, implorando para sair e respirar. Nós não temos todo o tempo do mundo, olhos castanhos. Não o desperdice.
-Não há mais nada que eu possa fazer. Certo, talvez eu possa fazer alguma coisa, mas ainda não sei o que é.
-Pense a respeito, olhos castanhos. Estarei por perto, se algo der errado novamente.
-Nunca duvidei disso.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

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Obrigada pelo olhar firme, desconcertante, cheio de (in)certeza.

O dia até mudou de cor ;)

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Eu que sempre fui tão senhora de mim, sempre precisei provar que não preciso de ninguém pra me sentir completa, me encontro tão nescessária.
Me deparo urgente de mim e veja só, aos que acham que a vida é uma ciência exata, provo como sou um paradóxo:

Ou vivo intensamente, ou vou levando essa rotina que não incomoda, não interfere, não fere, mas também não é muito vida. Vou dispensando tudo o que não julgo suficiente pra me roubar a solidão, ora, pra isto eu mesma me basto. Vou excluindo do meu convívio todos que não parecem prontos pra marcar meu dias, e vou agregando aqueles que me parecem suficientes. E vou me excluindo um pouquinho também, vou me dispensando sem pudores, porque é mais fácil me deixar de lado do que lidar com a minha falta de coerência.
Quanto mais aprendo sobre mim, mais boicoto meus conhecimentos. Quero contradizer todas as afirmações que faço lutando para entender o que se passa em mim. Não devo ser tão complicada, mas calculo que os sentimentos que divido com toda mulher sirvam como base pra decidir tudo na minha vida. Indecisões são capazes de preencher meu dia, mudar minha vida, rosolver a direção do meu humor. Possibilidades tentam perfurar meu estômago, atravessar meu corpo, tentam me destruir antes mesmo de terem permissão para acontecer.

Estou ficando morna de tanto não me permitir ir além, de tanto calcular meus passos, me esconder em falsa timidez, evitar sentimentos, evitar relacionamentos, evitar gente só por ser gente e pela possibilidade de alguma coisa dar errado. Posso correr o risco de dar certo?

Estou prestes a mergulhar.


Adaptado: Verônica H.